Soberania mundial: produzindo alimentos e energias renováveis

Nós engenheiros agrônomos tivemos a oportunidade de vivenciar 30 anos mágicos. No início de janeiro de 1991, ano da minha conclusão na ESALQ, junto com outros 28 jovens de 22 a 25 anos e acompanhados pelo prof. Roque Dechen e sua esposa, Sonia, partíamos para 60 dias inesquecíveis na Europa, organizados pelo grupo de viagens da tiram, para visitar o agro europeu.

Maravilhados com tudo o que víamos, desde empresas de insumos, fazendas, indústrias de alimentos e bebidas, agentes de distribuição, enfim, um banho de conhecimento, um mundo tão distante. Nós aqui com problemas de inflação, impeachment, economia ainda fechada e aquela carga tradicional de um subdesenvolvido. Praticamente ninguém falava do nosso país, em nenhuma das palestras, como importante agente da agricultura mundial.

Em 1990, fechamos o ano produzindo 58,3 toneladas de grãos, 7,5 milhões de toneladas de carnes, entre outros produtos. Vendíamos ao mundo USD 13,0 bilhões em produtos do agro. Em 2019, praticamente 30 anos depois, fechamos o ano produzindo 241,1 milhões de toneladas de grãos, ao redor de 25 milhões de toneladas de carnes e exportando quase USD 100 bilhões. Nossa área de grão pulou de 38,9 milhões de hectares para 63,2 milhões.

Em 10 anos, segundo o Ministério da Agricultura, o agronegócio trouxe ao Brasil USD 931 bilhões. Imaginemos isso aos valores de hoje e em reais, as exportações provavelmente passaram de R$ 4 trilhões. Trilhões do mundo que entraram no Brasil. Com muito ainda para crescer quando se analisa os direcionadores de população, urbanização, crescimento econômico, principalmente dos países asiáticos e africanos, onde estarão 80% dos estômagos em 2050.

Nossa geração vivenciou todo esse crescimento no auge da vida profissional, bem como o crescimento de uma potência ambiental, que tem mais de 66% do seu território preservado, um dos códigos florestais mais rigorosos do mundo, 45% da sua matriz energética vinda de fontes renováveis e por ter a maior proporção de uso de biocombustíveis nas frotas mundiais, sendo São Paulo a megalópole com a matriz de combustíveis mais limpa entre suas pares.

Em 2019, as exportações do agro/alimentos/bioenergia totalizaram quase US$ 97 bilhões, 43% do total que o Brasil vendeu ao mundo, deixando um saldo de US$ 83 bilhões. Sem o agro, a balança comercial brasileira registraria um déficit de US$ 36 bilhões, que impactaria negativamente na taxa de câmbio, traria aumento de inflação e conseguentemente aumento da taxa de juros, jogando “por terra” nossa chance de retomada econômica.

Em 2019, o valor total da produção agropecuária (o que foi produzido X preço médio de venda) foi recorde, de quase R$ 631 bilhões, sendo 2,6% maior que em 2018. Geramos R$ 411 bilhões nas lavouras e R$ 220 bilhões nas carnes. Imaginemos todas as oportunidades criadas nas cidades com os gastos desses bilhões vindos o trabalho na terra, em imóveis, automóveis, restaurantes, supermercados, entre outros. Sem esse movimento, como teriam sido os resultados nesses outros setores?

Num mundo onde as potências medem forças em diversas áreas, coube ao Brasil se posicionar na geopolítica na nobre missão como fornecedor mundial de alimentos e energias renováveis, contribuindo para o controle dos preços dos produtos e provendo maior acesso das populações mundiais graças à transferência contínua de ganhos de produtividade aos preços dos produtos.

Continuaremos essa conquista com duas grandes evoluções: no setor público, amplo conjunto de reformas estruturantes que melhorem o ambiente de negócios e a competitividade (previdência, tributária, trabalhista, logística, jurídica, concessões e privatizações, entre outras) e reduzam o peso do Estado na economia e, no setor privado, a estruturação permanente de projetos de planejamento estratégico por setores, visando entender onde estão as oportunidades, eduzir as vulnerabilidades e ter projetos estruturantes para aumentar o tamanho e a rentabilidade dessas cadeias produtivas. Parabéns aos engenheiros agrônomos, timoneiros deste período dourado. Temo lindo futuro pela frente.

Quem tem que montar grupos de viagens agora são os europeus, americanos, asiáticos… e o destino é conhecer o agronegócio do Brasil.

* Marcos Fava Neves é professor titular (em tempo parcial) das Faculdades de Administração da USP em Ribeirão Preto e da EAESP/FGV em São Paulo, especialista em planejamento estratégico do agronegócio. Confira textos, vídeos e outros mateirias no site doutoragro.com e no canal do Youtube.

Marcos Fava Neves

Professor da Faculdade de Administração da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto e da Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, especialista em planejamento e gestão estratégica do agronegócio. (doutoragro.com)