Pesquisa científica e o progresso da sociedade

Ciência e tecnologia são potentes motores do desenvolvimento da sociedade moderna, pois produzem conhecimentos e inovações que transformam a vida de bilhões de pessoas. Da internet à agricultura, da automação à indústria farmacêutica, o investimento em pesquisa científica viabilizou melhorias significativas no nosso dia a dia. A revolução nas comunicações, na produção de alimentos, na diversificação de máquinas e equipamentos e na sofisticação da medicina atestam avanços extraordinários alcançados pela sociedade na transição do século XX para o atual.

Além disso, a complexidade dos desafios do mundo moderno coloca a ciência cada vez mais em evidência. A Organização Mundial de Saúde (OMS) acaba de declarar o vírus zika uma emergência de saúde pública internacional. O vírus se espalha de forma muito rápida em toda a América do Sul e Central e foi detectado em mais de 20 países. Não há ainda vacina ou cura para o zika, o que exige de governos e autoridades sanitárias enorme esforço para gerir a adversidade, enquanto mais conhecimento sobre o vírus e seu controle são produzidos. Em momentos como este fica claro quão imperativo é o investimento em pesquisa científica. Conhecimento novo precisa ser gerado com rapidez para se conter a propagação do vírus e de seu vetor – o mosquito Aedes aegypti – em todo o globo.

Ainda

assim, há uma crítica recorrente do setor de ciência e tecnologia à crescente dificuldade de se garantir mais constância no apoio à pesquisa científica brasileira, seja pela limitação e instabilidade no fluxo dos recursos, seja pela percepção de que pouco uso é feito dos conhecimentos gerados. Em tempos difíceis, quando recursos são mais escassos, acirra-se a discussão acerca da efetividade dos investimentos públicos em pesquisa científica e crescem comparações e oposição entre a pesquisa acadêmica, sem aplicação imediata, e a pesquisa aplicada, orientada à solução de problemas do mercado e da sociedade. Soma-se aí o debate sobre os papéis dos setores público e privado na pesquisa científica e tecnológica. As pressões impostas pelos vírus zika ilustram bem quão estéreis são muitas dessas discussões, pois sem sintonia entre a geração de conhecimento fundamental e aplicado e entre o investimento público e privado, muitos problemas da sociedade ficarão sem solução.

Mariana Mazzucato, em seu best seller “O Estado Empreendedor”, argumenta que o investimento público, realizado de forma persistente, é um pré-requisito fundamental para a inovação na sociedade. A autora rechaça a visão de que o Estado não tem papel relevante a cumprir no mundo da inovação e mostra que o setor privado estará mais propenso a investir depois de o “Estado empreendedor” ter feito os investimentos mais ousados e de maiores viagra sans ordonnance riscos. Ela argumenta ainda que, além de ciência fundamental e aplicada, e de investimento público e privado, países necessitam de um sistema de inovação que difunda conhecimentos por toda a economia e faça com que eles resultem em novas ideias e novos empreendimentos.

Talvez aí esteja um elo perdido entre a pesquisa científica e a inovação. O caso da pesquisa agropecuária brasileira é ilustrativo, e revela que o setor privado ocupa-se mais de desenvolver novos produtos, como sementes, fertilizantes e máquinas, ao passo que o setor público, por sua vez, se concentra na geração de conhecimentos indispensáveis para o aprimoramento da produção, como a forma adequada de aplicação de insumos, o melhor espaçamento nas lavouras, o mapeamento dos riscos e as boas práticas para superá-los, dentre muitos outros. Estudos da Embrapa e parceiros, sobre a produtividade da agricultura brasileira, indicaram que o uso de insumos explicou tão somente 34,1% do crescimento da produção, enquanto os demais 65,9% foram explicados pelos novos conhecimentos disseminados no processo produtivo.

Como uma parte significativa da produção da pesquisa pública é conhecimento, que não se materializa necessariamente em insumos e produtos, visíveis e facilmente mensuráveis, são comuns os questionamentos acerca da sua efetividade. É por isso que as organizações públicas de pesquisa precisam aprimorar suas estratégias de comunicação e melhor informar a sociedade sobre a relevância da sua produção. E mostrar que se dedicam a missões de maior risco, muitas vezes de retorno em prazos longos. Que funcionam como “locomotivas limpa-trilhos”, indo adiante e removendo obstáculos para que os comboios do setor privado transitem com segurança e velocidade, promovendo investimentos e progresso.

O sistema de inovação agropecuária no Brasil conta com abundantes exemplos da importância dos conhecimentos gerados pela pesquisa pública, e de como esses conhecimentos potencializam a capacidade do setor produtivo. Muitos outros setores da economia brasileira poderiam se beneficiar de uma maior simbiose entre os setores público e privado de inovação, o que aprofundaria a relação virtuosa entre a pesquisa científica e o progresso da nossa sociedade.

Maurício Lopes

É geneticista de plantas por formação, e recebeu seu BSc em Agronomia (1983) pela Universidade Federal de Viçosa, Mestrado em Genética Vegetal (1989) pela Universidade de Purdue, Indiana, EUA e seu PhD em Biologia Molecular (1993) pela Universidade do Arizona, em Tucson, EUA. Foi líder do Programa de Melhoramento de Milho na Embrapa Milho e Sorgo, Chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Milho e Sorgo, da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, e do Departamento de P&D da Embrapa. Atuou como responsável pela coordenação do processo que levou ao desenvolvimento e implementação do atual sistema de gestão da programação da Embrapa (SEG). Maurício também foi cientista visitante da FAO, em Roma, membro do Conselho Científico da Fundação Agropolis, em Montpellier, na França, e coordenador do Labex Coréia, um programa de cooperação internacional da Embrapa na Coréia do Sul. Exerceu o cargo de Diretor Executivo de Pesquisa e Desenvolvimento por 18 meses e atualmente é o Presidente da Embrapa.