O Caminho da Roça

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Muita gente importante vem dizendo diariamente na mídia, de forma articulada, que o Brasil está cheio de coisas erradas na gestão de vários setores – energia, transportes, saude, segurança… É uma enxurrada de críticas e reclamações que se reflete naturalmente na avaliação popular do governo federal. No entanto, embora tenha caído vários pontos nos últimos meses, conforme as mais recentes pesquisas de opinião pública, o prestígio da presidente Dilma continua relativamente alto.

Faço esse preâmbulo para enfatizar minha surpresa diante do ocorrido por ocasião da inauguração da última Agrishow, no último dia 29 de abril. No decorrer de meu discurso, em Ribeirão Preto, eu deixei escapar que “o Brasil está no caminho errado” e virei celebridade por bem mais do que 15 minutos.

Para mim era algo óbvio, reconhecido pelo senso comum e fartamente exposto até em inúmeras manifestações populares, mas a repercussão foi tão grande que passei a me perguntar se não seria eu o errado.

Não, não havia nada de errado comigo, eu fui sincero naquela declaração. Quem me conhece sabe que, mais até do que cana, cultivo cada vez mais a sinceridade. É uma planta que não precisa de adubo ou irrigação. Dá frutos de verdade. Uns doces, outros amargos. Contém sementes, mas também porta espinhos.

Também me perguntei se estariam querendo me transformar em porta-voz de um descontentamento mais ou menos generalizado. Afinal, em ano eleitoral, qualquer um pode virar bode expiatório, cavalo de batalha ou bucha de canhão…

Bem a propósito, na coletiva de imprensa do último dia da Agrishow, onde estiveram todos os candidatos ao Governo do Estado, além do candidato presidencial Aécio Neves, perguntaram ao Alexandre Padilha, ex-ministro da Saude e candidato do PT ao Palácio Bandeirantes, o que achara da minha afirmação sobre os caminhos errados do governo. Ele me conhece há bastante bastante tempo e já trabalhamos juntos na época em que ele conduzia o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES) da Presidência da República, do qual faço parte. Ele comentou: “O dia que o Maurilinho deixar de falar a verdade e de dizer o que pensa, eu deixo de ser amigo dele”. Por coincidência, logo antes da coletiva, ele, eu e o Deputado Newton Lima estávamos discutindo exatamente este tema – a sinceridade no exercício da crítica.

A REALIDADE QUE EU VIVO

Na realidade, a tal declaração de Ribeirão Preto foi um desabafo baseado na realidade vivida diretamente por mim como empresário do setor sucroenergético – um setor que está claramente na lona.

Vejam como fui sinceramente objetivo no discurso de inauguração da Agrishow 2014, no qual eu disse textualmente: “Infelizmente, o etanol e toda a indústria em seu entorno atravessam uma crise sem precedentes – e corremos o sério risco de passar para a história como aqueles que fizeram quase desaparecer o maior e mais bem sucedido programa de energia renovável do mundo”.

Colocado fora do contexto, esse trecho pode induzir alguém a pensar que meu discurso foi negativo. Ao contrário, fui positivo a maior parte do tempo. Otimista, esperançoso.

Aliás, gostaria de fazer uma correção em relação ao trecho acima. Onde eu disse “e corremos o risco de passar para a história…”, prefiro agora que a frase seja dita na primeira pessoa: “- e eu não quero passar para a história como um daqueles que fizeram quase desaparecer o maior e mais bem sucedido programa de energia renovável do mundo”.

Perdoem a sinceridade, mas o fato é que me sinto um dos pais do Proálcool. Esse programa de combustíveis renováveis foi criado em 1975 a partir de sugestões que levantamos na região de Ribeirão Preto e reunimos no documento Fotossíntese Como Fonte Energética, levado em 1974 ao presidente Geisel por um grupo de técnicos e empresários, meu pai entre eles.

Mesmo sofrendo altos e baixos, o Proálcool foi reconhecido como o maior programa mundial de renovação energética. Nele se envolveram agricultores, engenheiros, empresários, políticos e, graças a ele, o Brasil mudou de patamar na agroindústria canavieira.

Por isso, eu sinto sinceramente o risco de que venhamos a perder a liderança mundial em biocombustíveis. Em cana continuamos por cima, mas em volume de produção já fomos superados pelos EUA, que usa o milho como fonte do seu etanol. Por isso eu disse, também, na abertura da Agrishow: “Sinceramente, confio na capacidade de gestão do Governo, dos produtores e agricultores”.

Evidentemente, o etanol não vai deixar de ser produzido, mas dói ver escoar pelo ralo uma oportunidade histórica extremamente valorizada pelo governo do presidente Lula, que foi um grande parceiro da agroindústria sucroenergética nos mercados interno e global.

Temo que estejamos jogando fora também a inteligência aplicada no desenvolvimento da cadeia produtiva da cana, especialmente no interior paulista, que somente assumiu a liderança do setor nos últimos 60 anos.

Até o final dos anos 1950, a agroindústria açucareira era dominada pelo eixo Alagoas-Pernambuco. De lá para cá, o setor fixou-se firmemente no Sudeste e invadiu antigas pastagens antieconômicas do Centro-Oeste. Todo mundo canta a revolução da soja, que foi levada do Sul para todas as outras regiões brasileiras, mas precisamos também reconhecer o que fizeram os produtores de cana e os empresários do açúcar e do etanol.

VOTO DE CONFIANÇA

No discurso da Agrishow, depois de comparar a garra dos agricultores brasileiros à criatividade dos nossos compositores de música popular e ao talento dos nossos futebolistas, acrescentei: “Espero que sejamos competentes e eficientes o bastante para superar essa crise”.

OK, foi um voto de confiança no empresariado do agronegócio, mas foi também um recado para o governo. Um recado meio sem esperança, já que a presidente, além de estar profundamente magoada com o setor e não confiar nos produtores, está assoberbada por diversos problemas nas áreas de energia e infraestrutura, para ficar apenas no campo econômico.

O Senador Aécio Neves fez diferente, compareceu à Agrishow e aproveitou bem sua visita, proclamando-se “o candidato do agro”, e disse o que todos queriam ouvir.

Estamos num momento em que tudo está sob questionamento no Brasil. Será consequência da conjuntura econômica mundial adversa? Serão os frutos das mudanças climáticas? Ou será que estamos sob influência de um fenômeno sociopolítico ainda não identificado?

Até no esporte estamos num viés de baixa: a Copa do Mundo, idealizada para ser fonte de lazer e de receitas com o turismo, virou um motivo de protestos populares, e só o Felipão pode nos salvar. O governo federal recebe cartões amarelos todos os dias nos campos da segurança, saúde e educação.

No campo rural, que é a minha praia, já deixou de ser moda dizer que o Brasil é um país essencialmente agrícola, mas é justamente aí que o carro pega: o que seria de nosso país sem a contribuição do setor rural?

Desde o Plano Real, e lá se vão 20 anos, os indicadores econômicos confirmam que o Brasil não estaria bem sem os excelentes rendimentos na lavoura e na pecuária. Trata-se de uma conquista que se deve tanto à crença dos agricultores na sua atividade como ao suporte da pesquisa e da assistência técnica, ambas oferecidas pela Embrapa e uma ampla rede privada de interesses associados às atividades rurais.

Invertendo a questão, cabe perguntar: como seria o Brasil se os outros setores da economia tivessem o desempenho do nosso agro?

Vamos combinar que é uma pergunta pertinente. Afinal, o agro é o único segmento da nossa economia a manter indicadores positivos ao longo dos últimos anos.

Se poderia dizer até que a agropecuária virou a menina dos olhos do governo (mas sejamos sinceros, a menina ainda é a Petrobras).

É certo que não falta crédito, que a rede de pesquisa é muito eficiente, que as sementes melhoram constantemente, que temos uma assistência técnica de boa qualidade e as indústrias de máquinas e implementos dão saltos espetaculares no desenvolvimento de tecnologia adequada às nossas condições de solo e clima.

Sem dúvida, por trás desse sucesso está presente o governo, que colhe frutos variados a cada online casino safra. É o agro que garante o abastecimento interno. É a lavoura e a pecuária que ajudam no controle da inflação. São os grãos e as carnes que constroem o superávit da balança comercial com o exterior.

O AGRO ENTREGA

Cabe perguntar finalmente se, fora o indispensável apoio à produção, o setor agrícola está recebendo de volta, em termos de infraestrutura, tudo o que entrega para a sociedade. Porque o agro entrega!

O agro tem sido o fiel da balança. Com garra e criatividade, ele supera problemas climáticos e deficiências viárias para chegar aos centros de beneficiamento, aos canais de distribuição e aos portos de embarque internacional. Se há desperdícios no caminho (errado?), a menor das culpas cabe aos produtores rurais.

Se o Brasil inteiro funcionasse como vem operando nossa agricultura, já seríamos com certeza um país do Primeiro Mundo, já teríamos superado nossas desigualdades internas e poderíamos, quem sabe, exportar tecnologias sociais e ambientais para melhorar a qualidade de vida em nosso planeta. Entre essas tecnologias, uma das melhores que temos é a agroindústria que faz da biomassa uma alternativa ao petróleo.

De fato, na produção rural estamos longe do marasmo da década de 1950, quando nosso país mergulhou na aventura industrial que trouxe consigo a urbanização e uma necessidade premente de obras de infraestrutura nas cidades e nas zonas de exploração agrícola. Éramos incipientes e fazíamos parte do Terceiro Mundo, mas já naquela época se reconhecia haver meios de matar a fome na face da terra. “Falta apenas vontade política”, disse o presidente americano John Kennedy no Congresso Mundial de Alimentos, em 1963.

Quando Kennedy denunciou a falta de vontade do mundo, uma estatística corrente dizia que morriam de fome diariamente no mundo 14 mil pessoas. Era uma cifra inacreditável e revoltante para os jovens que, como eu, se iniciavam na vida profissional no meio agrícola.

Passados 50 anos, os indicadores atuais informam que agora morrem 40 mil pelo mesmo motivo – a fome. É uma degradação incompreensível quando se recorda que o mundo nunca produziu tanto alimento nem teve à disposição tamanho acervo tecnológico na exploração dos caminhos da roça.

Abundam as colheitas mas falta comida no prato de um a dois bilhões de pessoas, ou seja, 15% a 30% da população mundial, que já passou de sete bilhões. São dados perturbadores especialmente para quem dedicou a vida à agricultura. Estamos no caminho errado.

O homem voa, extrai petróleo de 5 mil metros de profundidade e se comunica instantaneamente via satélite – ferramenta que serve também para fotografar distúrbios climáticos e sinais de poluição como as manchas de óleo nos oceanos ou os incêndios florestais –, mas somente com incentivo fiscal ou muita pressão moral toma-se a iniciativa de mover uma palha pelo semelhante carente que às vezes não tem nem prato nem teto. Infelizmente, parece que o progresso material e técnico só fez encurtar nossa paciência diante da ignorância instalada atrás da miséria.

A LUTA CONTRA A MISÉRIA

No Brasil, felizmente, por mérito do governo federal, especialmente no governo Lula, a miséria diminuiu nos últimos anos, mas cresce a consciência de que não basta dar comida para os pobres – a única saída para o futuro passa pela via educacional, saída que começa pela difusão de informações essenciais sobre o mundo em que vivemos. A verdade é um insumo fundamental da administração dos negócios públicos e privados.

Desde os anos 1950 o mundo possui um organismo internacional – a FAO, hoje dirigida pelo agrônomo brasileiro José Graziano da Silva – cujos objetivos são ajudar a agricultura e acabar com a fome no mundo. O orçamento ordinário da FAO para 10 anos é o equivalente ao que o mundo gasta em armamentos em apenas um dia: US$ 4 bilhões. Ou, seja, US$ 100 mil dólares diários por cada morto de fome.

Não pensem que eu esteja aqui a fazer demagogia. Acabar com a fome tem sido um mantra de líderes mundiais, como o general Eisenhower, que presidiu os EUA no final da Segunda Guerra Mundial. Em 1953, num discurso sobre a paz, ele denunciou: “Cada fuzil fabricado, cada barco de guerra construído, cada bomba que se joga, significam, em última instância, um roubo daqueles que têm fome e não têm comida”.

É curioso como os generais se tornam pacifistas após conhecerem a guerra. Foi assim também com o nosso general Osório, herói da guerra do Paraguai, que legou à posteridade a frase que serve como rodapé de suas estátuas em praças do Brasil: “O dia mais feliz da minha vida seria aquele em que me viessem dizer que todos os povos do mundo entraram em confraternização, destruindo todos os seus arsenais”.

Numa entrevista recente, o agrônomo espanhol José Esquinas-Alcázar, consultor da FAO, lembrou que os países mais desenvolvidos atuam energicamente no combate a pandemias muito menos mortais que a fome, mas contagiosas, como a gripe aviária, a febre suína ou, mais recentemente, a gripe A. “No entanto, o número de mortos pela gripe A, no mundo, durante estes anos foi da ordem de 17 mil pessoas; menos da metade dos que morrem em um só dia de fome”, diz ele, remetendo à “falta de vontade” falada por Kennedy.

É aí que cresce o papel do agronegócio. Além de produzir alimentos para humanos e animais, biocombustíveis, fibras e remédios, o agro tem outras funções (social, ambiental, de estabilidade cultural etc.) cuja contabilidade é muito difícil. Por isso não é costume das autoridades levar em conta a relação custos/benefícios das atividades agrárias e da eficácia comparativa entre os diferentes tipos de agricultura.

Desde os simples cultivos de subsistência até os casos mais sofisticados de plantations articuladas com agroindústrias e sistemas logísticos construídos para operar com grandes volumes, a agricultura deve ser objeto de uma leitura inteligente. Trata-se de um sistema de vida que pode ser tocado geração após geração pelos membros de uma mesma família. No fundo, todos os brasileiros têm um pé na roça.

O BRASIL QUE DÁ CERTO

Essa complexa teia de vida está presente não apenas nas atividades agropecuárias propriamente ditas, mas em exposições e feiras onde se cruzam todos os agentes e operadores do agronegócio. Os cientistas e técnicos estão familiarizados com o mundo dito caipira, mas os administradores públicos nem sempre têm consciência do alcance das atividades e dos negócios rurais.

Neste ano de 2014, a presidente Dilma novamente não veio à Agrishow, onde teria uma oportunidade incrível de estabelecer diálogo com o setor do agronegócio, lançar o plano de safra, visitar a roça e os verdadeiros agricultores. Lamentei por ela.

Quem veio, teve uma fantástica oportunidade de dar um mergulho num exemplo do Brasil que dá certo. O Brasil é retrato do que há de mais adiantado na atividade agrícola – um show permanente que se reinventa a cada safra.

A propósito da presença da presidente na Expozebu de Uberada, onde até levou uma vaia, o publicitário José Luiz Tejon Tejido escreveu um artigo na Exame On Line dizendo que “uma sucessão de fatos coloca a classe do agronegócio com medo de uma continuidade do governo Dilma”.

Eu não saberia dizer até que ponto o agronegócio “tem medo” do governo, mas é fora de dúvida que falta comunicação entre ambos. Daí a crise de confiança que nos distancia. Os empresários rurais reclamam da “insegurança jurídica no campo”, da “burocracia na área ambiental” e, juntando-se aos empresários urbanos, concentram suas críticas na gestão da área energética e na lentidão das ações na infraestrutura viária.

Por tudo isso é importante que em agosto, no Congresso Brasileiro de Agronegócio promovido pela Associação Brasileira de Agronegócio (ABAG), a presidente Dilma esteja presente em São Paulo para ouvir as demandas do setor rural e oferecer respostas, explicações e planos. Será um encontro histórico.