Brasil: queda livre e insolvência à vista

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A evolução da economia brasileira tem-se mostrado errática. Não conseguimos manter um crescimento superior a 3,5%, estimativa de nosso potencial, por um período superior a cinco anos, desde a retomada das eleições diretas, em 1989. Como definido pelo “Financial Times”, o crescimento brasileiro é um “Voo de Galinha”, sempre curto e seguido de aterrisagem forçada.

Desta vez, a aterrisagem será dura e longa, e tudo começa com a evolução da economia global. No passado recente, 2/3 do crescimento global têm sido gerados pelos https://www.acheterviagrafr24.com/prix-viagra-pharmacie/ mercados emergentes, e metade desse crescimento deve ser atribuído à China. Por isto, estão inseridos nos radares de todos os investidores globais.

Assim, a economia e ativos brasileiros são acompanhados em detalhe e têm impacto imediato nos mercados. O downgrade brasileiro, pela S&P, elevou os prêmios de risco não só do Brasil, mas de todos os emergentes.

Neste ambiente, a China iniciou este ano em um processo de desaceleração previsível

e aceitável. Entretanto, no início de julho e em agosto, os chineses tentaram manipular os mercados de capitais e de câmbio, com ações tão esdrúxulas e primárias que geraram pânico e extrema volatilidade nos mercados.

Com isto, o mundo passou a desconfiar que os dados da economia real e de crescimento também poderiam estar sendo manipulados. Isto gerou uma forte saída de recursos e investimentos da China, que perdeu cerca de USD 500 bilhões em reservas nos últimos meses, sendo USD 94 bilhões só em agosto.

Como resultado, todas as estimativas de crescimento global foram reduzidas. O FMI reduziu sua projeção para 3%, já indicando um viés negativo para a próxima revisão. Nossa previsão atual é de 2,5%, o obtido nos últimos quatro anos, mas com viés negativo face à China atual.

O orçamento brasileiro para 2016, enviado ao Congresso pelo Governo, prevê um déficit operacional de R$ 31 bilhões e o governo apresentou um programa de ajuste fiscal de R$ 64 bilhões. Supondo que as medidas de ajuste fiscal sejam aprovadas, estes resultados não consideram variáveis não operacionais, como a dívida interna e programas do Banco Central (BACEN).

Os juros pagos no serviço da dívida pública – incluindo as perdas nos swaps cambiais – em 12 meses até julho, atingiram R$ 452 bilhões, representando 7,92% do PIB. O custo da dívida, em agosto, era de 14,99% ao ano. Como não existe qualquer referência à dívida na proposta orçamentária, a suposição implícita é de que ela será rolada, ou seja, ela crescerá a 7,92% ao ano. Este crescimento com os níveis atuais de custo, ou mesmo com alguma redução, torna seu serviço inviável. Em dois anos, a dívida bruta crescerá dos atuais 65% para cerca de 80% do PIB, perdendo sua credibilidade. A conclusão óbvia é que o Brasil está insolvente internamente e sem qualquer perspectiva de melhora.

Cabe relembrar que cerca de 20% da dívida interna, equivalente a USD 155 bilhões no final de junho, são detidos por não residentes, o que gera reflexos externos pela insolvência interna.

O Brasil tem USD 371 bilhões de reservas e uma dívida externa do Governo Central com valor de USD 76 bilhões, segundo o último relatório trimestral do BACEN em junho. A conclusão inicial é que o Governo Central apresenta solvência primária em sua dívida externa.

Entretanto, ainda segundo o relatório do BACEN, os componentes privados da dívida externa envolviam: USD 152 bilhões com bancos, USD 121 bilhões com outros setores e USD 155 bilhões da dívida pública interna com não residentes. Um total de USD 428 bilhões, sem contar os USD 210 bilhões de empréstimos intercompanhias.

O serviço e solvência destas dívidas em um momento de stress no mercado internacional e no câmbio são uma incógnita, mas com certeza existiriam complicações.

Tudo sugere que, apesar da solvência do Governo Central, a solvência das dívidas do setor privado é questionável. Entretanto, uma casino conclusão definitiva pode ser obtida analisando-se o mercado de Credit Default Swaps (CDS) que precifica o custo do seguro de uma eventual inadimplência de papéis no exterior. Na realidade, o que deve ser examinado é o diferencial entre o CDS Brasil – o preço do seguro da inadimplência externa brasileira – e o CDX – o CDS médio dos emergentes – o preço médio do seguro da inadimplência dos emergentes. Para isto foram obtidos o CDS Brasil e o CDX, para um seguro por um período de cinco anos.

Até o

início de setembro, o CDS é inferior ao CDX, mas a partir daí ele passa a superar o CDX e o diferencial dispara. Em 24/09/2015, o CDS Brasil atinge uma máxima de 525 bps (basis points) contra 373 bps do CDX. Esta pressão externa levou o BACEN a anunciar uma possível venda de dólares à vista das reservas para moderar o mercado.

Um anúncio não seguido pela efetiva venda, o que revela uma excessiva preocupação com o nível das reservas. Não surpreendentemente, as pressões retornam no dia seguinte.

A conclusão é simples: a partir do início de setembro, as estimativas de solvência externa do Brasil se deterioram rapidamente. O veredito

internacional está dado e certamente considera também a insolvência interna. A eventual utilização efetiva das reservas, com a venda de dólares à vista, permitirá inicialmente uma moderação temporária das pressões de mercado, mas será incapaz de conter uma corrida temporalmente consistente e geral. Cabe lembrar que o país já viveu esta situação em 1998/99. 

A conclusão simples é que a política econômica vem sendo conduzida sem qualquer racionalidade e sem considerar a acheter viagra pfizer moins cher solvência e liquidez das dívidas interna e externa brasileiras, que são as variáveis mais relevantes no momento internacional atual. A desconsideração levou à rápida deterioração do CDS Brasil e ao rebaixamento do grau de investimento pela Standard & Poor’s.

O mercado internacional vive um momento delicado em que o Brasil tem influência direta nos emergentes. Ele entende que o Brasil é “too big to fail” e espera um comportamento responsável que não observa, já que a política econômica foca-se apenas nos aspectos políticos e interesses imediatos locais.

A perda do grau de investimento pela Standard & Poor’s levantou tardiamente a percepção de que o mercado internacional é parte dos problemas e soluções locais. Entretanto, nada sugere uma mudança no foco político e local das propostas econômicas desestruturadas. Novos rebaixamentos devem ser esperados, com consequências mais graves. A deterioração do momento nacional é visível e requer uma atuação imediata. O curioso é que, sem uma solução racional local, o Brasil caminha para uma solução via agentes externos, como o FMI.

Um filme já visto e que acaba de ser projetado com turbulências na Grécia.

Ney Brito é PhD em Economia Financeira, por Stanford University, Professor Titular da UFRJ, ex-Editor Associado do Journal of Banking and Finance e Research Associate, da Columbia University

Comentários

  1. Sérgio Barros

    Para o povo que ignora os mecanismos econômicos, toda essa parafernália de processos, termos e jargão é demasiado ininteligível, porém o líquido fica evidente, ou seja, estamos como naquela piada do avião português com dispositivo de segurança de última geração, quando no vôo inaugural com a imprensa a bordo ocorre uma pane e o piloto, depois de tentar vários recursos, usa o tal dispositivo que se resume a um botão. Ao acioná-lo, de uma tampa do painel saem duas mãos fazendo o sinal de…hum…vamos dizer…tá ferrado.

    Em suma, vamos pastar.

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