As Bolhas Financeiras

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Num mundo tomado pelo avanço exuberante da tecnologia, com o exemplo recente de que um único celular, hoje em dia, tem mais poder computadorizado do

que toda a NASA quando da primeira viagem do homem à Lua, precisa-se analisar alguns aspectos psicológico-econômicos, que deram suporte às bolhas financeiras que assolaram o planeta, bem como traçar um roteiro comum das suas consequências mais recentes.

A primeira bolha de que se tem conhecimento aconteceu nos idos de 1637 na Holanda, quando ainda fluía a Peste Negra, e refere-se a uma exacerbação dos preços dos bulbos raros das tulipas (a Semper Augustus). Originárias da Turquia, as tulipas foram aperfeiçoadas em Amsterdam e tornaram-se uma referência de valor. Em dado momento os preços atingiram uma máxima e começaram a ceder vertiginosamente, comprometendo todos os negócios futuros, pois chegaram a 5% do valor corrente.

A seguir a história nos reporta que a “South Sea Company”, fundada em 1711 e criada como uma associação público-privada para consolidar uma redução do custo da dívida nacional da Inglaterra, nasceu com o monopólio do comércio com a América do Sul, mas o envolvimento inglês com as guerras de sucessão espanhola levou ao comprometimento dos lucros da Cia. As ações tiveram um colapso em 1720, o que passou a ser conhecido como a Bolha da “South Sea”.

O pânico de 1873 foi uma crise financeira conhecida como a Longa Depressão, e foi causada pela queda na demanda de prata, a qual foi seguida pela decisão alemã de abandonar o padrão da prata. Em 1871, Otto von Bismarck exigiu uma vasta indenização em ouro da França e cessou de cunhar as moedas em prata. Na Inglaterra as consequências foram: duas décadas de estagnação, posterior inflação, grandes déficits comerciais, significantes perdas de propriedade em Chicago e Boston, queda de reserva bancária e uma imensa especulação nos investimentos, sobretudo no setor ferroviário.

Em 1930 aconteceu a Grande Depressão, originada nos Estados Unidos depois de casino uma forte queda nos preços das ações, que começou em Setembro de 1929, e com efeitos devastadores na maioria dos países ricos e pobres. O comércio internacional cedeu mais de 50%, sendo de -70% nos EUA, -60% na Inglaterra, -54% na França, e -61% na Alemanha. A produção industrial cedeu -46% nos EUA, -23% na Inglaterra, -24% na França e -41% na Alemanha e o desemprego aumentou: 607% nos EUA, 129% na Inglaterra, 214% na França e 232% na Alemanha. Em meados de 1930 as taxas de juros caíram a baixos níveis mas, as expectativas de deflação e a relutância do mercado em assumir empréstimos, levaram à redução sensível do consumo e, a seguir, dos investimentos. Uma espiral deflacionária iniciou-se em 1931, com condições agravadas nas áreas rurais, onde os preços das commodities despencaram e o setor de mineração apresentou um desemprego exacerbado. O declínio da economia americana acarretou a crise nos outros países, agravadas por políticas protecionistas que pioraram ainda mais o comércio.

A 19 de Outubro de 1987 aconteceu a chamada Segunda Feira Negra, quando os mercados de ações pelo mundo afora despencaram. A queda começou em Hong Kong, logo atingindo a Europa e os Estados Unidos, quando o Dow Jones cedeu 22,61% para 1738 pontos.

Na década de “90 deu-se a crise do mercado japonês, causada inicialmente por uma explosão nos preços dos imóveis e das ações, ocasionando uma bolha financeira e, em seguida, uma continuada queda de valor que vem reduzindo o nível de crescimento do PIB japonês até os dias atuais.

O mundo deparou-se a seguir com a maior crise financeira mundial desde a Grande Depressão de 1930, com origem nos EUA, a chamada bolha dos “sub-prime”, com a falência do Lehman Brothers, seguida pela crise europeia de insolvência em diversos países. Em 2009 a economia mundial se contraiu pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, com um declínio do comércio em mais de 10%. O FMI estimou que as perdas das instituições financeiras foram da ordem de 2,2 trilhões de dólares entre 2007 e 2010. O resultado foi um desemprego de mais de 50 milhões de pessoas. Bancos Centrais ao redor do mundo reduziram substancialmente as taxas de juros, enquanto os governos registravam crescentes déficits públicos. Historicamente, crises bancárias e de soberania da dívida, frequentemente ligadas ao débito privado, são transformadas em débito do governo. Interessante é notar que o lucro líquido das empresas americanas, segundo o FED, continuou crescendo de 1 trilhão e 50 bilhões de dólares em 2008 para 1,171 em 2009, 1,443 em 2010, 1,475 em 2011, 1,712 em 2012, e já superando em 2013, pois dados do 3º trimestre já indicavam 1,737.

A lição que depreende das bolhas e das crises é que a melhor maneira de evitá-las é com políticas macroeconômicas condizentes. No nosso país nota-se uma grave discrepância dessas políticas, obrigando as autoridades a usarem mais as taxas de juros e de câmbio como ferramentas de ajuste econômico, com custo mais elevado para a sociedade como um todo, quando a maneira correta é contrabalançar as políticas monetária e cambial com as políticas fiscal-tributária, previdenciária e a das leis trabalhistas para ajustar a política econômica.